Cumplicidades

Há palavras que nos beijam, Como se tivessem boca. Palavras de amor, de esperança. De imenso amor, de esperança louca...

segunda-feira, novembro 29, 2004

Até sempre....

De repente nada mais consigo escrever, meu amor.
Há um profundo vazio que se recusa a ser preenchido
Por sonhos que nunca se tornarão realidade, ai de mim.
É bom entrelaçarmo-nos em doces devaneios suspirados,
Em palavras lindas e em sentimentos de profunda devoção.
Mas destrói-nos a alma realizarmos por instantes
Que o sofrimento motivado pela privação permanente
Não passará nunca, por muito que façamos de conta.
Não vejo perspectivas de poder ser tua e, por consequência, de tu seres meu.
Deixemos repousar as coisas do coração por aqui, antes que nos aniquilem.
Porque as da amizade essas, para mim, serão eternas.
Intimo-te a que não me faltes em momento de aflição, se puderes!
Que eu tenho a coragem de fazer o que tem de ser feito e tu também o sabes.
És aquilo que de mais belo me aconteceu e resides já no meu peito num canto único.
Agora, retém as lágrimas.
Deixo-te o meu sorriso como símbolo do que foi o tempo nosso.
Que te acompanhe sempre um beijo que principia aqui...

Até sempre!



domingo, novembro 28, 2004

Regresso...

O meu amor da vida está paralisado pelo teu sono
É como ave no ar veloz detida
Tudo em mim se cala para escutar o chão do teu regresso

Pois no ar estremece tua alegria
- Tua jovem riqueza de arbusto -
A luz espera teu perfil teu gesto
Teu ímpeto tua fuga e desafio
Tua inteligência tua argúcia teu riso

Como ondas do mar dançam em mim os pés do teu regresso


Sophia de Mello Breyner Andresen




Sinto no rosto o vento da saudade que te sei
Saboreio nas gotas de chuva o sal das tuas lágrimas.
E nas nuvens escuras que passam vejo a tristeza que te consome.
Vejo-te no Adeus, e dói-me o sorriso de partir
Este partir e ficar na saudade
Ficas de pé acenando teu braço nuvem
Onde a chuva é certeza...

Antevemos já o silêncio do reencontro
Nos novelos do tempo
Que fiamos lado a lado
Por todas as horas

Antevejo as portas que se irão abrir no teu olhar
Adivinho-me a escorregar pelo mistério do teu corpo
Como o sol de ti ...de mim

Sol que nasce dentro de nós,
E que rompe em abraço luz as nuvens da saudade.


Sossega amor, não demoro...

sexta-feira, novembro 26, 2004

Ruy Belo



Atropelamento mortal

Nalgum oásis do princípio ele fora
Um fugitivo brilho no olhar de Deus
- a vida havia de lho lembrar muitas vezes

Atravessou as nossas ruas entre gatos,
a chuva molhou-lhe as pobres botas cardadas.
Teve um banco de jardim, teve amigos, um deles o sol.
Sempre sem o saber procurou Deus.
Um dia, foi pelos campos fora atrás dele,
perdeu o emprego na Câmara Municipal. Teve mãe mas depois
nunca mais foi solução para ninguém.

Naquele dia a morte instalou-o
confortavelmente no céu. Lá se foi
com seus modos humanos, seus caprichos
e um notório acanhamento em público
(há-de a princípio faltar-lhe à vontade entre os anjos).

Tinha o nome no registo, agora habita
nas planícies ilimitadas de Deus.
Nas suas costas ainda se derrama
a tarde interrompida.
Manhãs e manhãs desfilarão sobre ele,
Caracóis cobrirão a memória daquele
que foi da sua infância como qualquer de nós.
Teve um nome de aqui, andou de boca em boca,
agora é Deus que o tem na voz.


Sugestão alternativa do OrCa para acompanhar a fotografia:

A vida é um traço que faço num passo gizado dos dias
A vida é o que eu faço no passo-compasso no laço dos dias
E quando parece que nada acontece por melancolias
Mesmo que eu não saiba descobrir-lhe o nexo
Há um reflexo simétrico e simples
Que segue a meu lado
E sou eu que o faço
No espelho de água desse doce enlace
De que é feita a vida.



Foto escolhida e da autoria do Ognid

Poema de Ruy Belo"Roubado" ao Morfeu

quarta-feira, novembro 24, 2004

Fragmentos de uma carta #2

...
tu do meu coração, manda-me um recado;
que eu posso ir junto dele, e tomar as suas mãos,
dizendo, Aceita toda a felicidade de mim.

e.e. cummings



Minha Vida

São longas as horas que passo sem ti. Cada folha que cai, sinto-a como uma lágrima de saudade. A minha alma, como uma árvore que se prepara para o Inverno, encontra-se quase despida do manto de ternura que me deixaste da última vez que estivemos juntos.
Já preciso da Primavera que é a tua presença. Do Sol que é o teu sorriso, das estrelas que são os teus olhos, dos pássaros que são tuas palavras e das flores que são teus beijos.
Só as tuas benditas mãos me podem massajar a alma de tão tolhida que está pela aridez da tua ausência. Vem para mim com a inexorabilidade do Tempo, para que não falhes.
Aguardo-te com a impaciência do renascimento.

Sempre tua

Maria


segunda-feira, novembro 22, 2004

Ninho....


Imagem daqui

Corres para mim
Como nuvem soprada
Rasando o trigo
E assim vens correndo manso
Instante sombra na copa das àrvores
Agitadas pelo vento

Sorris e cantas
Porque o hoje já foi
E a angústia do amanhã
É ainda um medo que não chegou

sou o teu ninho feito de macias penas
Que me arrancaste docemente, dia a dia, hora a hora
Urdidas pelos jogos de amor em que exímio és.
Descansa aqui das fadigas do corpo
E enxuga as lágrimas da alma.

Estou sempre aqui… para ti

sábado, novembro 20, 2004

Esta Saudade...

Saudade! Gosto amargo de infelizes,
Delicioso pungir de acerbo espinho,
Que me estás repassando o íntimo peito

(...)

(...) Vem (...)

A alma buscar-me que por ti suspira.

Almeida Garrett




Sento-me na varanda dos teus olhos

E faço-te este poema de saudade
Alongo os gestos na música que entardece
Como são longos os braços num abraço que estremeçe
Como é vermelho o sol na tarde que esvoaça
Traz-me novelos de oiro nos dedos traços
Alonga no azul o perguntar dos olhos
Deixa morrer na terra a semente do meu pão
E abandona o corpo no ondular das ondas
Sê rocha, areia, vento e céu azul
Morre amor e nasce lírio, ramo flor
Olhos de mar rasgados de martírio
Aurora na tarde, esperança de amanhã
Andorinhas da tarde dançando loucas
Na corrente fechada das nossas mãos...

(...)

Depois, levanto-me e mergulho no mar de ti
nadando descuidada
nos segredos da tua boca...

quinta-feira, novembro 18, 2004

Irmão...

Estavas sentado na borda do passeio.
Quando passei fitaste-me.
Olhei-te nos olhos e tive um arrepio.
Lá bem no fundo, muito para além da retina,
A cratera negra do desespero abria-se,
Mostrando os contornos de todo o lixo acumulado durante a tua jovem vida.
Achei que me pedias ajuda.
Consternada e envergonhada, enfiei-te na mão, titubeando,
A única nota que trazia comigo.
Covardemente varri-te nesse instante do meu pensamento,
Não sem antes ter pensado: e se fosses meu irmão?
Não fiz caridade. Fugi de uma situação que não aguentaria, a ser verdade.
Quando passo no local onde te vi,
Recolho sempre o saco de plástico que guardavas junto a ti
E todos dias o jogo no lixo.
Nunca tive coragem de o abrir...
Por favor, perdoa o meu egoismo!


Imagem retirada daqui



Aquele homem que passou na rua
Com o olhar perdido
Num sonho sem forma
É meu irmão.
Aquele homem que arrasta os pés
Com os braços caídos
O fato roto e os pés doridos
É meu irmão.
Aquele homem que foi novo
E tinha a felicidade no olhar
Que nunca me viu
Que nunca me falou
Que não sabe se sou viva
Ou se já morri
E que sonha como eu
Um sonho escondido no olhar
E que tem como eu
O vazio em cada mão
Aquele homem
É meu irmão.


quarta-feira, novembro 17, 2004

Naquele Rio

...

Deixavas-me deslizar sobre ti
Num movimento sem princípio nem fim
Em torno da tua figura orgulhosa e bela,
Onde sentia cada escaninho do teu corpo
Cada segredo, cada sonho e cada esperança.
Crescia com eles e quando os tinha todos,
Abrias os braços para que neles me pudesse envolver
e descansar em ti
As palavras morriam no longo beijo da despedida...

Maria


Rio Zêzere


De esperas construímos o amor intenso e súbito
que encheu as tuas mãos de sol e a tua boca de beijos.
Em estranhos desencontros nos amamos.
Havia o rio mas sempre ficávamos na margem.
Eu tocava o teu peito e os teus olhos e, nas minhas mãos,

a tarde projectava as suas grandes sombras
enquanto as gaivotas disputavam sobre a água
talvez um peixe inquieto, algo que nunca pudemos ver.
As nossas bocas procuravam-se sempre, ávidas e macias
E por muito tempo permaneciam assim, unidas,
Machucando-se, torturando as nossas línguas quase enlouquecidas.
Depois olhávamo-nos nos olhos
No mais profundo silêncio. E, sem palavras,
Partíamos com as mãos docemente amarradas e os corações estoirando uma alegria breve
Quando a noite descia apaixonada
Como o longo beijo da nossas despedida.

Joaquim Pessoa



segunda-feira, novembro 15, 2004

Até Sempre...



Passou hoje a Sombra Negra à minha beira.
Deu três voltas em fúria e arrebatou para sempre
Uma vida e um pouco do meu passado.
A vida de alguém que amava profundamente,
e que sempre amarei
Sinto conforto em tantas e tantas memórias
Ligadas a este alguém que hoje se libertou
De um invólucro carnal banhado pelo sofrimento.
Vivia numa casa grande que faz parte de uma minha antiga e feliz realidade.
Apesar dos medos de criança que aí passei era um sítio que me agasalhava. Que me abraçava e protegia... Um sítio onde os risos eram uma melodia constante, e onde fui feliz!
Habitará agora noutra casa, a minha.

Até sempre,

Descanse em paz...


sábado, novembro 13, 2004

Saquinhos de amor diluídos
com palavras

Sabe bem, não sabe?
Disfarçar a tristeza com palavras que se bebem. Despalavrar o saquinho lavando-o em lágrimas que o coração aquece, sempre.
Sabes bem, sabes?
Beber-te o olhar que sorri enquanto ouço a bolachinha substituir-se à vontade... sobra a recordação das migalhas que trago em mim. Bebo-as depois do vazio...
sabem a ti!

De Anjo élico






Sabe bem, sim
Sabe bem sentir as tuas palavras a escorregarem pelos meus lábios a penetrarem-me a pele, e percorrer as minhas veias e artérias, até chegar ao coração,
A deixarem um rastro de fogo na sua passagem
sentir o meu corpo queimar
E olhar nos teus olhos e perder-me nesse ceu negro que me ilumina.
Sentir as palavras a dançarem-se neles em ritmos suaves e ternos
Roubar cada uma e guarda-las num frasco de vidro já envelhecido por este tempo que nos consome…
E Bebe-las numa doce lentidão para sentir o teu sabor, quando o vazio da tua ausência se instala no meu corpo e na minha alma, até que possa saciar esta tão já sede de ti...


quinta-feira, novembro 11, 2004

A Canção Possível



Poderei ainda, amor, cantar
o exercício da insuportável ternura
sem que a vida sucumba
às cicatrizes do passado?

Por mais que digamos,
as nossas bocas morrendo uma na outra,
entre espasmos,
ainda a rosa é pálida
e os nossos dedos não passarão de mendigos
que se tocam na espuma dos dias.

Por mais que digamos,
as palavras jamais saberão o caminho
que lhes é devido,
o caminho das flores do silêncio
esse o único que salva o amor,
cravando-o na boca de Deus.

É noite, ainda, meu amor,
e a lua vem beijar-te os ombros
o teu corpo procura o lugar do meu,
como se nenhum outro coubesse dentro dele
antigo como a noite.

E os dedos serão ainda em torno da luz,
buscando a chama, o fruto,
a ferida que as tuas palavras
rasgaram no meu corpo
em volta dessa insuportável ternura.

Maria João Cantinho



(imagem de Eclipsivos)

quarta-feira, novembro 10, 2004

Afectos e Coisas Simples

Uma carícia
Um toque
Ou olhar de malícia
Que produz choque,
Um olhar amoroso

Uma cama
Uma fofa almofada
Um bocejo
Um sonho impreciso

Uma lágrima rolando
Uma criança com fome chorando
Uma mão estendida
Um gesto ameno e afável

Uma pausa para a alegria
Um meigo sorriso
Uns versos declamados e sentidos
Uma guitarra tocada

Um quadro pintado
Uma maçã vermelha
Dois olhos brilhando
Uma promessa…
...



O luar filtrado pelas diáfanas cortinas.
O grilo repetitivo sente-se para além do recorte da janela
Aberta sobre um sono que tarda em chegar.
Passo-te a mão, carinhosamente, pela testa perlada do teu calor
E tenho a recompensa de um sorriso suspirado
Numa nota impossível de reproduzir em qualquer instrumento.
Saboreando-te a meu lado,
Sopro-te a face, de mansinho, por instantes, para te refrescar.
Lentamente as pálpebras cedem ao peso próprio.
Deixo-te submerso num doce sonho ao qual desejo pertencer.
Que a fadiga te seja escassa...

segunda-feira, novembro 08, 2004

Vida...

Sorri, meu amor.
Estás vivo! Vivo!
Pois não lês tu o que aqui te escrevo?
Meu amor, eu existo e adoro-te.
E a vida é boa e dela podemos colher para nós o que nos dá prazer
E aceitar, sem revolta, o que nos faz sofrer.
São dois aspectos inelutáveis de uma mesma realidade. Como em tudo.
Pois não é bom o Sol como fonte de vida e mau quando nos queima?
Pois não é bom o Mar quando nos fornece alimento e mau quando nos afoga?
Pois não é boa a chuva que irriga os campos e má quando nos inunda os haveres?
Já reparaste que apreciamos sempre com muito maior intensidade as coisas que tivemos e deixamos de ter?
Aquilo com que convivemos todos os dias tende a banalizar-se e a deixar de constituir objecto da nossa atenção mais consciente.
Quando de repente nos falta, descobrimos que afinal era tão importante para o nosso equilíbrio mental e emocional.
Seja uma pessoa, um sentimento, uma situação ou um objecto.
Era tão bom conseguirmos a cada instante analisar, por um segundo que fosse, porque nos sentimos bem naquele momento e registar-mos no íntimo o resultado.
Deveríamos poder depois recordar automaticamente esses dados como apoio a situações de desagrado ou infelicidade.
Pensa que, quando tudo parece desabar à nossa volta, estás Vivo e por isso capaz de comandar o teu destino. Haja coragem...
Só existe uma inexorabilidade contínua: a sucessão dos dias e das noites.
Tudo o mais tem mutação garantida e alternância na intensidade.
Um abraço fundo, fundo...


quinta-feira, novembro 04, 2004

Encontro...



Foi breve e intenso nosso encontro
De olhos, boca, peito e mãos,
No teu corpo percorri todos os vãos
Mais todos os volumes em confronto.
Promessas em segredos sublinhados
Por soluços, risos, esgares e gestos
Dos quais mais não ficaram senão restos
Dos amplexos e beijos permutados.
E dançamos ao ritmo vivo da cadência
Das palavras mutuamente sussurradas
Nos momentos de esperanças renovadas
De que não prosseguirá a tua ausência?

Maria

terça-feira, novembro 02, 2004

Infinitamente...


A dimensão de um grande amor no tempo e no espaço está para além de todas as unidades físicas de medida. No tempo mede-se em vidas e no espaço em universos.

Maria



Iluminas
a sombra dos meus dias
neste mundo que abrimos devagar
entre o corpo e a alma, sempre mais
secretos no abismo que os devora.

Maior do que este amor nada haverá
até ao fim dos tempos: os teus olhos
respondem ao destino, à sua eterna
graça que paira sobre as nossas vidas
agora a transbordarem numa única
razão feita de luz. a tua boca
inunda a minha língua com o sabor
de todos os sentidos que mergulham
a noite numa água sem retorno.

Para ti absorvo o hálito de um verão
em cada beijo cego, surdo e mudo
respirando de súbito em uníssono:
enigma revelado num só frémito,
insónia submersa que , em silêncio,
regressa pouco a pouco aos nossos braços
afogados na espuma do seu mar.

Perto do teu sorriso há uma fonte
embriagada e pura- meu amor,
dá-me esse coração, essa primeira
raiz de todo o fogo, esse relâmpago
onde cresce para nós a flor de um grito;
segreda-me às escuras mais um sonho
antes de adormeceres sobre o meu ombro.

Fernando Pinto do Amaral

segunda-feira, novembro 01, 2004

Palavras (tuas)

Preciso das tuas palavras mais doces
Anseio pelo teu olhar mais cândido.
Tenho pressa!
Se me quiseres, prepara já a forma dos teus braços
Para que quando a ti me chegar
Não perca tempo a aninhar-me.
Invoca-me sem tardança
E deixa que o meu amor te inspire.
E estando eu junto a ti
Desfiemos juntos o rosário dos suspiros
Que trazemos guardados
E se transmutam em segredos
Que mutuamente beijamos baixinho, baixinho…

Maria


Fotos de Biquinha

Chegarás sempre na última palavra
na tarde noturna do desejo
onde a paixão se recolhe
e deposita até os fantasmas
febris do desespero
Chegarás na bruma
das sílabas sonoras do amor
o ar sonando no sonho
como uma nuvem que se perdeu
e fica boiando no horizonte
Chegarás como a sombra
quente do sol
esquecida no adeus
Chegarás para dizer
que o amor revela-se
à luz noturna das palavras

Amor de amar


Luíz de Miranda



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