Cumplicidades

Há palavras que nos beijam, Como se tivessem boca. Palavras de amor, de esperança. De imenso amor, de esperança louca...

quinta-feira, setembro 30, 2004

... cumplicidade(s)

Escuta.
... cada nota que te olha, cada tom que te prova, cada sabor que te ouve...



A verdade sem disfarce(s), a projecção de uma participação… composta. Mais um esboço que se traça… (de) um conceito misturado nessa IMAGEM UNA de um CORPO de perímetros ilimitados.

... onde começa um, onde termina o outro (?) …

... o encontro é o dos sentidos ou da coincidência dos seus códigos (?) …

(interrogações há para as quais temos a vida como resposta)

… mas no profundo espaço das (nossas) assumidas convicções uma temporária certeza: a legitimidade da entrega… a autenticidade das sensações… e a envolvente (re)invenção desse(s) «negativo(s)» que também somos!

Personna & Metafora


segunda-feira, setembro 27, 2004

Pergunta-me...

Deixa-me sem respostas.
Esgota em mim todas as palavras que sempre quiseste ouvir
E assegura-te que as possuis todas.
Não me interrogues de novo, pois sabes que não mais precisas.
Passo a falar somente dentro de ti, meu amor.
Assim posso reservar esta boca para um beijo,
Interminável e ininterrupto,
Sugando de ti o alento da Eternidade
Rejubilando-me com a certeza do Sempre...

Maria


Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinzas
e despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue.

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos.

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer...

Mia Couto

sábado, setembro 25, 2004

Estrela da Tarde....

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!

José Carlos Ary dos Santos

segunda-feira, setembro 20, 2004

Refúgio...


No badalar suave, das horas mortas, dos sinos das nossas almas,
Reverbera o meu amor por ti .
Ressonância infinita que faz perigar a integridade do senso
Que ainda me impede de enlouquecer no prazer que desejo.
Do esmaecer dos sons que se dissipam vai um beijo
Que lanço na esperança que te alcance
E te leve notícias de mim.
De mim para ti voa o sentimento como uma pequena ave
Que porá no teu peito, qual ninho, o ovo da minha paixão.
Bem fundo no meu ser está guardada a certeza doce
Da perenidade do refúgio eterno que és
Independentemente da tua ausência.

Maria




De onde me chegam estas palavras?
Nunca houve palavras para gritar a tua ausência
Apenas o coração
Pulsando a solidão antes de ti
Quando o teu rosto dóia no meu rosto
E eu descobri as minhas mãos sem as tuas
E os teus olhos não eram mais
que um lugar escondido onde a primavera
refaz o seu vestido de corolas.
E não havia um nome para a tua ausência.

Mas tu vieste.

Do coração da noite?
Dos braços da manhã?
Dos bosques do Outono?

Tu vieste.
E acordas todas as horas.
Preenches todos os minutos.
acendes todas as fogueiras
escreves todas as palavras

Um canto de alegria desprende-se dos meus dedos
quando toco o teu corpo e habito em ti
e a noite não existe
porque as nossas bocas acendem na madrugada
uma aurora de beijos.

Oh, meu amor,
doem-me os braços de te abraçar,
trago as mãos acesas,
a boca desfeita
e a solidão acorda em mim um grito de silêncio quando
o medo de perder-te é um corcel que pisa os meus cabelos
e se perde depois numa estrada deserta
por onde caminhas nua.

Joaquim Pessoa

Nós...


A noite encontra-nos juntos
Tão juntos que a nossa sombra,
Projectada pela Lua,
Não tem sexo e é uma só.
Sinto-me completa contigo
E o nosso amor enche os espaços vazios dos nossos corpos.
Quando digo: sinto-te completamente, é por ti e por mim.
Sinto-me tão suavemente preenchida por nós dois, pelo nosso amor.
E num abraço de infinita ternura deixamo-nos embalar até ao amanhecer.

Maria



Dois! Eu e Tu, num ser indissolúvel! Como
Brasa e carvão, centelha e lume, oceano e areia,
Aspiram a formar um todo,– em cada assomo
A nossa aspiração mais violenta se ateia...

Como a onda e o vento, a lua e a noite, o orvalho e a selva,
– O vento erguendo a vaga, o luar doirando a noite,
Ou o orvalho inundando as verduras da relva
– Cheio de ti, meu ser d'eflúvios impregnou-te!

Como o lilás e a terra onde nasce e floresce,
O bosque e o vendaval desgrenhando o arvoredo,
O vinho e a sede, o vinho onde tudo se esquece,
– Nós dois, d'amor enchendo a noite do degredo,

Como parte dum todo, em amplexos supremos
Fundindo os corações no ardor que nos inflama,
Para sempre um ao outro, Eu e Tu pertencemos,
Como se eu fosse o lume e tu fosses a chama.

António Feijó

quarta-feira, setembro 08, 2004

Interregno breve...

Para acorrer a assuntos pessoais inadiáveis que necessitam de toda a minha concentração, vou ser obrigada a fazer uma pequena interrupção da minha presença no Cumplicidades.
Será um breve intervalo, por alguns dias, no decorrer dos quais não deixarei de vos visitar, sempre que possível.
Voltarei com o antigo template que de momento se encontra em remodelações.
Até lá!

Deixo-vos uma flor, e um poema que adoro...

Maria





Quando eu disser adeus...

Quando eu disser adeus, amor, não diga
adeus também, mas sim um "até breve";
para que aquele que se afasta leve
uma esperança ao menos na fadiga

da grande, inconsolável despedida...
Quando eu disser adeus, amor, segrede
um "até mais" que ainda ilumine a vida
que no arquejo final vacila e cede.

Quando eu disser adeus, quando eu disser
adeus, mas um adeus já derradeiro,
que a sua voz me possa convencer

de que apenas eu parti primeiro,
que em breve irá, que nunca outra mulher
amou de amor mais puro e verdadeiro

Alphonsus de Guimaraens

terça-feira, setembro 07, 2004

É urgente o amor...




É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
Ódio, solidão e crueldade,
Alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade



segunda-feira, setembro 06, 2004

Beijo

Foi como se todos os meus fantasmas desaparecessem,
Foi como se todas as minhas injustificadas dúvidas se dissipassem,
Foi como tudo o que eu acreditava que sentias por mim,
Me aparecesse a cobrar a minha insegurança:
Quando me beijaste!
Sabes, aqueles sinos ridículos dos filmes de 3ª, que tocam?
Tenho vergonha de o confessar mas é verdade!
Tocaram até me ensurdecer...
E o fogo? Sim aquele fogo que nos consome, dizem...
Também é verdade. Por momentos temi que te queimasses!
Quero mais, muitos mais...até deixar de ouvir
E nada mais restar de mim que um molho de cinzas
Fumegantes de felicidade...

Maria


Gustav Klimt - "The Kiss" (1907/08)

Lábios
que encontram outros lábios
num meio de caminho, como peregrinos
interrompendo a devoção, nem pobres
nem sábios numa embriaguez sem vinho:

que silêncio os entontece quando
de súbito se tocam e, cegos ainda,
procuram a saída que o olhar esquece
num murmúrio de vagos segredos?

É de tarde, na melancolia turva
dos poentes, ouvindo um tocar de sinos
escorrer sob o azul dos céus quentes,
que essa imagem desce de agosto, ou
setembro, e se enrola sem desgosto
no chão obscuro desse amor que lembro.


Nuno Júdice


domingo, setembro 05, 2004

Dor...

sexta-feira, setembro 03, 2004

Ausência

Momentos há em nos encontramos fora da nossa cabeça
Em que o que nos rodeia não é mais que uma tela
Da qual já não constamos, por mais que nos procuremos.
Deixamos de ser impressionados pelas solicitações exteriores
E eis que partimos para um lugar recôndito por um caminho desconhecido.
Sentimo-nos com se estivesse-mos acima do solo
Entre o ser e o era-mos, nada nos faz falta.
Defende-se assim o espírito do sofrimento
Procurando um alívio na ausência, que é consciente
Para os sãos de espírito...

Hoje, sinto-me assim. Ausente de mim...

Maria





talvez tudo isto
seja apenas eu
a ir devagar
infinitamente cheio de medos

pousado, sobre mim,
há um sorriso que se esquece
no gesto trémulo das horas.

(...)

o sonho onde me deito
adormece sobre mim.
e a escuridão que
os olhos me trazem
é feita de alguma ausência.

o tempo que me reflecte,
não me sabe,
e este que me olha
não sou eu nem ninguém.

na reflexão onde me exteriorizo
alguma coisa se destrói em mim.
passo ao lado do aceno
e alguma coisa nasce em mim.

(...)

íntimo, o espaço, flutua
sobre a extensão do olhar.
em simultâneo um sorriso
quebra o gesto imóvel
da mão.

aqui, neste mínimo movimento,
o corpo vai de encontro
ao tempo decomposto.
onde, a dor, incompleta,
continua a ser diluição
de um voo indiferenciado.

a luz que revela
o ver ausente
separa o corpo repousado
sobre o possível ou
o limite infundado do grito
despido, pronto.

levanto-me desta brevidade
forma de ser ou, tão simplesmente,
um consolo onde
retorno ao descanso do silêncio.

a dor, repousada
sobre o corpo,
vive indiferenciada a
lembrança da esperança breve
que prende a ausência
do encontro ténue
onde um diluir do espaço
se torna espera.

(...)

olhas-me, perpetuamente, indiferente
olhas-me, e já por me olhares vês-me.
queria dizer-te palavras,
queria tão somente dizer-te.
não sei, não posso, não me deixas,
olhas-me assim,
só assim.

(...)

na hora em que perdi
resisti, imponente, impotente,
sei lá.
confundo-me na hora do deslumbramento.
resguardo-me inteiro,
apenas um corpo
jurado para sempre.

dormente, a vertigem,
cai sobre a memória.
um sonho que se abre
ainda, e mais uma vez,
na ausência que se
não pensa e torna
os sulcos, uma e outra vez, medo
de ir cair sobre o espaço ou corpo
onde pus sem resposta
a ferida que desce,
sobre o tempo.

(...)

o olhar inventa o regresso
sob o resguardo persistente
da dilaceração angustiante da dor.

vãos, os olhos disfarçam
a violência inscrita
que lenta respira
e desce abrindo-se no
recolher hesitante da voz.

assim, exacta, caminha quase só
metamorfose do tempo
onde pus toda a alma
e regresso, agora, eterno,
ao lugar do fim.

Eduardo de Quina




quinta-feira, setembro 02, 2004

Enleio


Quando nos enredamos nos caminhos da Paixão
É como se de uma vertigem se tratasse
São voltas e voltas, umas sem princípio, outras sem fim
Outras ainda, sem um nem outro.
É um precipício que nos suga
Para um mundo do qual a razão não faz parte.
A Paixão é criatura autofágica de desmesurado apetite
Com um ventre do tamanho da nossa desdita ou da nossa ventura.
Doença da alma, que só o tempo, por vezes, cura
Deixa como sequela rara, o Amor!
Tal é o destino da que tenho por ti...

Maria





Não sei se volteio
Se rodopio
Se quebro

Se tombo nesta queda
em que passeio

Não sei se a vertigem
em que me afundo
é este precipício em que me enleio

Não sei se cair assim me quebra... Me esmago ou sobrevivo
em busca deste anseio


Maria Teresa Horta

quarta-feira, setembro 01, 2004

Se tu soubesses...

Se ao menos soubesses o quanto te amei
O quanto te sonhei e esperei
Se ao menos soubesses de todas as palavras silênciadas,
De todas as que se gritam ansiosas em mim...
Se tu soubesses ao menos que tudo em mim era teu...
Que depois de ti...
Se tu soubesses...

Maria




Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse
ou se ao menos me desses as mãos como quem beija
e não partisses, assim, empurrando o vento
com o coração aflito, sufocado de segredos;
se ao menos percebesses que eram nossos
todos os bancos de todos os jardins;
se ao menos guardasses nos teus gestos essa bandeira de lirismo
que ambos empunhamos na cidade clandestina
Quando as manhas cheiravam a óleo e a flores
e o inverno espreitava ainda nas esquinas como uma criança tremendo;
se ao menos tivesses levado as minhas mãos para tocar os teus dedos
para guardar o teu corpo;
se ao menos tivesses quebrado o riso frio dos espelhos
onde o teu rosto se esconde no meu rosto
e a minha boca lembra a tua despedida,
talvez que, hoje, meu amor, eu pudesse esquecer
essa cor perdida nos teus olhos.

Joaquim pessoa


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