Cumplicidades

Há palavras que nos beijam, Como se tivessem boca. Palavras de amor, de esperança. De imenso amor, de esperança louca...

terça-feira, agosto 31, 2004

Danço (te)

Ao compasso dos teus passos obrigo os meus pés a seguirem os teus.
Ao balançar do teu corpo ajusto o mover do meu.
O entrelaçar de mãos e o encostar de faces ao de leve
Pela primeira vez, produz uma indizível sensação de vitória
Sobre a timidez e de ultrapassagem da inocência da nossa primeira dança.
Nas ondas da música, todos os sonhos são permitidos
Quando acordam novos sentidos motivados por um contacto
Que nunca até aí tinha sido tão íntimo.
Um ligeiro arrepio percorre-nos em simultâneo
Ao tomarmos consciência da proximidade proibida no silêncio,
Respiramos ao ritmo de uma marcha,
Dançando o balanço lento de um blues,
E meus olhos perdidos nos teus sussurram-te palavras que só tu conheces. Que só tu entendes.
Prometem-te danças pelas ruas,
pela vida
sempre...

segunda-feira, agosto 30, 2004

Cores de Outono...

É no Outono que as cores são mais suaves e o Amor mais doce.
O cheiro da erva seca que apanhou as primeiras águas
Dá-nos a nostalgia de um Verão que claudica
E de um Inverno que se faz lembrado.
Os nossos passeios crescem acompanhando a dimensão
Do nosso desejo de estarmos sós.
Já reparaste na ternura que existe quando sacudimos mutuamente
As folhas moribundas que sobre nós poisam?
Quando te ajudo a pôr sobre os ombros o agasalho macio
Com que te precaveste?
Os pequenos ramos que estalavam sob os pés, já se não ouvem.
Apenas o roçar suave dos nossos passos na erva que desponta.
O mesmo ritmo, um só, para os dois neste Outono, nosso.
As primeiras queimadas prenunciam a intimidade de uma lareira
E a gota que te tiro da face com um beijo, as chuvas que depressa
Nos obrigarão a inventar outros passatempos, juntos.

Maria




Também as cores
amanhecem, também elas
acordam com as golas
da madrugada e cantam
a explosão do sol. Algumas
são água pura. A outras
o pincel conferiu-lhes
o rubor que se esconde
na nervura
de certas folhas. Outras,
ainda, festejam o nascimento
da alegria. Ou do amor,
tanto faz. Ou não fosse ele
uma festa.

Albano Martins

sábado, agosto 28, 2004

Dentro de ti...




Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.


David Mourão-Ferreira


sexta-feira, agosto 27, 2004

Amanhecer

Ah como gosto de sentir na pele a frescura do raiar do dia
E deleitar-me com as cores suaves e tímidas da alva.
Lilases, roxos, laranjas, amarelos, rosas, e azuis
Velados pela bruma subtil, hálito do campo que boceja ao despertar.
Dou sempre por mim a querer ter asas
Para, através do céu da jovem manhã,
Poder molhar-me nas nuvens e envolver-me nos tons do espaço que acorda,
Revolvendo-me, deleitada, entre Terra e o firmamento, radiante,
Vogando em direcção ao Sol menino.
Hoje quero esquecer tudo e sentir apenas estas cores
misturar-me nelas e voar...

Maria





Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes

Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor

Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.

Sophia de Mello Breyner Andresen




quinta-feira, agosto 26, 2004

(re)Começo....

Neste momento quero ser como a ave migradora que atravessa o oceano,
Sabendo que do outro lado há terra firme
Que me aguarda e onde uma diferente etapa me espera, como sempre.
Que a noite mais longa e o dia mais negro
Não sejam suficientes para que me abandone
À triste sorte que julgo minha.
Tenho de afastar os olhos das sombras para ver a Luz que nunca se apaga,
E os sinais de uma esperança gloriosa
Que irá surgir independente da minha vontade.
Vou agarrar a força me vem de dentro e confiar
Que não é o principio do fim
Mas o fim do princípio para uma nova etapa
Em que sairei renovada e fortalecida desta provação.
Com a convicção de que tudo tem a importância que tem e não mais,
Sentirei que as pequenas contrariedades doutrora são risíveis
E que o que conta é o que consigo guardar no coração
Mais o que dele sobra para poder distribuir.
Usarei o meu sorriso como aspersor de felicidade
E a minha escrita como depósito de bem-aventurança.
Vencerei, eu confio!

Maria




Chora!
Mesmo assim, vou olhar-te!
E ouvirei o barulho da cascata,
Esse pranto,
Lágrimas que rebolam,
Que caem,
Em cataratas de soluços.

Chora!
Não vou embora,
Ainda que me sinta
Encharcada por tanta tristeza,
Sentindo esse tiritar de dor!

Chora!
Que eu fico,
Vendo um rio desaguar,
Num mar de águas aquietadas.
Bastar-me-á a última gota,
A bonança…
Molharei nela o pincel,
Pintar-te-ei um arco-íris
Nesse céu dos teus olhos,
Uma obra-prima,
A nascente dum sorriso,

O teu!

Cristina Miranda



quarta-feira, agosto 25, 2004

Hoje...

Este dia foi sempre tão especial tão cheio de sorrisos, de abraços, de festa... Este foi e será sempre o teu dia.
Mas hoje, meu querido é cheio do vazio da tua ausência.
Lembro-me de correr na procura de um presente, algo que te desenhasse um sorriso nos lábios, algo que te fizesse feliz.
Tudo me parecia pouco...Tão pouco para ti.
Queria oferecer-te o mundo.
A vida...

Se eu pudesse...
Queria voltar atrás às nossas brincadeiras e correrias,
Às nossas pequenas zangas e safanões,
Às nossas gargalhadas e olhares cúmplices.
Quero recordar-te na alegria do teu viver
Para poder equilibrar a negra tristeza da tua perca.
Tive uma ideia para nunca nos afastarmos!
Vou transpor este mortal vazio para o gesto vital
De plantar duas árvores, uma maior e outra de menor porte.
À maior darei o teu nome e à menor o meu.
Cresceremos lado a lado, eu sob a protecção da tua copa.
Nada nos separará e cuidarei das duas por ti.
E quando a tua estiver crescida poderei abraça-la
E recostar-me nos seus ramos nos meus momentos tristes.
Falarei com ela como o fazia contigo e ela responder me á!

Entre nós, meu querido irmão, não existiu um Adeus, uma despedida.
Existiu um Até já que me ficou a dançar na alma.
Ao som de uma melodia triste.
E é esse até já, que te deixo agora:
Até já, meu querido irmão.
Amar-te-ei sempre!

Maria



Tudo se calou,
Enquanto se abria um trilho
Entre as nuvens…
Ninguém ousou tocar na Primavera,
Pintar o ar com outra cor!

Engalanaram-se os campos,
Tornaram-se ainda mais límpidos os ribeiros,
E os rios,
Correram céleres,
Para abrirem as portas dos mares!
E as flores ousaram bailados,
Coloriram-se,
Rodeando árvores de esperança!

Tudo parou!
E, mesmo as lágrimas
Deram as mãos,
Silenciando-se,
Para ouvirem a boa-nova:

Caiu do céu uma estrela,
Espalhando voos de gaivotas,
Sobre a alameda,
Por onde estás passeando...

Cristina Miranda


quinta-feira, agosto 19, 2004

Acasos de uma vida

Devagar aproximou-se do espelho e olhou-se demoradamente. A pele queimada pelo sol, o cabelo brilhante, as faces coradas, os olhos ansiosos e inquiridores, procuravam algo que indicasse o seu estado. Nada o revelava.
Sentia-se perdida. Em si apenas ouvia o eco daquelas palavras que lhe ditavam o futuro.
Tudo era tão vago, tão incerto...
Não sabia lidar com a incerteza, e agora ela fazia parte de si.
Não sabia lidar com a dor, e ela esperava-a sem piedade.
Pensava no tempo, o tempo que lhe escapava indiferente à sua vontade, ao seu sentir.
Quanto tempo? Teria tempo?
Afastou-se do espelho que lhe reflectia uma imagem que já não via como sua.
Olhou para o retrato que lhe devolvia um olhar terno, um sorriso aberto e sorriu-lhe com tristeza
- Tu sabes, murmurou-lhe baixinho...
- Sinto tanta falta desse teu sorriso, desse olhar, preciso de ti agora, preciso da tua força.
- Não sei se a tenho em doses suficientes para passar por isto, não sei se quero.
Tantos sonhos por realizar, tanto por viver...
Mas o tempo, o seu tempo começava a esgotar-se.
Teria tempo?
Cansada, abateu-se sobre a cama enrolando-se em si mesma e deixou que as
lágrimas lhe corressem livres, sem força para as reprimir. Chorou até ao esgotamento.
A última lágrima apanhou-a já adormecida...


quarta-feira, agosto 18, 2004

Fernando Pessoa

Não, Não digas nada!

Não, não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já

É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.



Não digas nada!

Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender -
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada.



terça-feira, agosto 17, 2004

Escrevo-te...

Hoje quero ser escritora sobre o papel do teu corpo.
Vou te gravar na pele, em palavras, aquilo que de dentro me trazes
Para que, por absorção, regresse ao teu ser e jamais se perca
E este ciclo se mantenha eterno.
A caneta é esta boca que repete à exaustão o que me fazes sentir
E a tinta, indelével, é o amor que sinto por ti.
À medida que escrevo vou-te cobrindo de pétalas vermelhas
que esvoaçam ao encostar das nossas bocas, ao juntar dos nossos alentos em uníssono...

Maria



estou opiada de ti
e percorres-me os nervos todos
com papoilas borboletas vermelhas

o meu corpo entrança-se de sonhos
e sente-se caminhando por dentro

aspiro-te
como se me faltasse o ar
e os perfumes dançam-me

qualquer coisa como uma droga bem forte
corpo e alma
rezam pequenas orações
gestos ritmados ao abraçar-te como quem abraça
sonhos...


Ana Mafalda Leite
(Moçambique - 1958)


segunda-feira, agosto 16, 2004

Abraço-te...

Abro-te os braços para que encontres neles o carinho que buscas
Ofereço-te um sorriso para que esqueças as lágrimas
Beijo-te as feridas para que sintas alívio
Sento-te no colo para que descanses
Embalo-te para que adormeças
Abraço-te…
E os meus braços tornam-se longos para que a dádiva
Que a ternura habita seja espuma no limite
Além das ondas

Maria



Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o ungüento
Como que sarei a minha própria dor.

Trago no nome as letras duma flor...
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento...

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crepúsculos da tarde,
O sol que é de oiro, a onda que palpita.

Florbela Espanca



Sonho (te)

Sonhei contigo embora nenhum sonho
possa ter habitantes tu, a quem chamo
amor, cada ano pudesse trazer
um pouco mais de convicção a
esta palavra. É verdade o sonho
poderá ter feito com que, nesta
rarefacção de ambos, a tua presença se
impusesse - como se cada gesto
do poema te restituisse um corpo
que sinto ao dizer o teu nome,
confundindo os teus
lábios com o rebordo desta chávena
de café já frio. Então, bebo-o
de um trago o mesmo se pode fazer
ao amor, quando entre mim e ti
se instalou todo este espaço -
terra, água, nuvens, rios e
o lago obscuro do tempo
que o inverno rouba à transparência
da fontes. É isto, porém, que
faz com que a solidão não seja mais
do que um lugar comum saber
que existes, aí, e estar contigo
mesmo que só o silêncio me
responda quando, uma vez mais
te chamo.

Nuno Judice



quinta-feira, agosto 12, 2004

Ensina-me......

Ensina-me a amar-te!

Diz-me que te não sufoque na ânsia de querer saber de ti
Obriga-me a respeitar o teu silêncio quando não queres falar.
Perdoa a minha impaciência irresponsável que se abate
Sobre essa barreira do não, firme e meigo,
Tecido de certezas entrançadas de dúvidas,
Numa trama de esperanças.
Vejo-as quando desvias os olhos às minhas perguntas mudas
Ouço-as num soluço que deixas escapar,
Sinto-as no afastar do teu corpo à minha proximidade.
Não te quero dilacerado por dentro
Pelos golpes que escapam da pele ja rija
Entre o amor que me tens e outras razões de consciência.
Não duvides que também são meus os motivos que te assistem.
Sofro por ti.
É uma aprendizagem difícil e longa.
Quisera ser perfeita e viver feliz
Só das palavras que escreves.
Aqui me tens despojada mas sempre esperançosa
De que seremos recompensados do nosso sacrifício.
Procuremos a alegria do pouco que, por enquanto, temos.
Senta-te aqui, a meu lado, e escreve comigo, sim?
Ensina-me, por favor!

Maria



quarta-feira, agosto 11, 2004

Nas tuas pétalas...

Circulo em torno de ti como uma abelha à volta de uma flor
A minha vida resume-se a um pairar encantado
Sustentado pelo aroma místico e pela tua imagem colorida.
Tenho como mel a alegria vinda do pólen das tuas palavras e gestos
E como cortiço a felicidade indizível de poder tocar.
Quero-te com vigor para que possa poisar em ti
E húmida com o orvalho da alva para matar a sede.
Que o vibrar das minhas asas o sintas como um suspiro de amor
E oiças Adoro-te! no meu zumbir.


Maria



Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva

Por ti eu sou a leve segurança de um peito
que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata

Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar

Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto

António Ramos Rosa




terça-feira, agosto 10, 2004

No teu olhar...

Penso que te direi amanhã
O que não disse hoje.
Ou talvez não.
As palavras são entre nós
Desnecessárias.
Não importa a hora
Mas o tempo das coisas.
Porque o silêncio
É um oceano de palavras
Que escrevo uma a uma
No teu olhar.



segunda-feira, agosto 09, 2004

Depois...

Gostava de reter numa câmara todos os teus gestos,
Gravar todas as palavras que disseste
E o ritmo do teu coração quando estavas em meus braços.
Gostava de encerrar num frasco o cheiro que me deixaste na pele.
Quero que não passe o pequeno ardor na minha face
E o teu sabor nos meus lábios,
Não quero lavar os teus rastros do meu corpo.

Quero guardar em mim,
o que fomos...

Maria




Não lavei
os seios
pois tinham o calor
da tua mão.

Não lavei
as mãos
pois tinham os sons
do teu corpo.

Não lavei o
corpo
pois tinha os
rastros
dos teus
gestos;
tinha também,
o meu corpo,
a sagrada profanação
do teu olhar
que não lavei.

Nem aqueles
lençóis,
não os lavei,
nem os espelhos,
que continuam
onde sempre estiveram:
porque eles nos viram
cúmplices, e a paixão,
no paraíso,
parece que era.

Lavei, sim,
lavei e perfumei
a alma, em jasmim,
que é tua, só tua,
para te esperar
como se nunca tivesses
ido
a nenhum lugar:
donde apaguei
todas as ausências
que apaguei
ao teu olhar.

Soares Feitosa


domingo, agosto 08, 2004

Sonho?

Sinto a minha vida como um bosque.
Passeio-me nele, e um pouco por toda a parte
Toco ao de leve, roço, tropeço e choco
Com as árvores que o constituem.
Outras há que nem delas me aproximo.
Ao percorrê-lo, noto que a luz do sol pouco penetra.
O ambiente na quase penumbra convida à melancolia.
Não fora algumas réstias de luz que conseguem penetrar
Por entre a ramagem, diria que vegetava também.
Devo andar em círculos pois nunca atinjo a orla.
De quando em quando atravesso uma clareira
Onde por momentos me recupero da sombra.
Na última em que passei estavas tu
Falamos e falamos, quase nos tocando mas
O tempo empurrou-me para fora dela, inexorável,
Desde então tenho passado lá mais vezes
E a clareira vai mudando de local.
Tenho reparado que o ambiente à sua volta vai clareando
Enquanto nós conversamos e nos tocamos ao de leve.
Sinto que nos aproximamos dos limites do bosque
Levados por aquele nosso espaço.
Quando lá chegarmos podemos sair para a luz dos campos
Onde as árvores são tão espaçadas que
Dificilmente impedirão o nosso caminho.
Fala comigo, fala muito e agarra-me com força!

Maria




Ah, pouco a pouco, entre as árvores antigas,
A figura dela emerge e eu deixo de pensar...

Pouco a pouco, da angústia de mim vou eu mesmo emergindo...

As duas figuras encontram-se na clareira ao pé do lago....

... As duas figuras sonhadas,
Porque isto foi só um raio de luar e uma tristeza minha,
E uma suposição de outra coisa,
E o resultado de existir...

Verdadeiramente, ter-se-iam encontrado as duas figuras
Na clareira ao pé do lago?
( ... Mas se não existem?...)
... Na clareira ao pé do lago?...

Álvaro de Campos



sábado, agosto 07, 2004

Cores de Esperança II

Sim, tenho esperança que os sorrisos sucedam às lágrimas
Que a bonança substitua o mau tempo
Que as minhas forças vençam a fraqueza do meu desalento.
Que a tua ausência sucumba às mãos da tua presença e
Que todas as tuas zangas sejam comigo,
Que seja o depósito dos teus desabafos,
Que me torne a esponja das tuas lágrimas.
Mas também...
A plateia dos teus sucessos,
A gémea da tua alegria
O coro das tuas gargalhadas,
A companhia dos teus passos e
O outro carril desta linha que desejo infinita.

Maria




queima o tempo
e o esquecimento
queima a vida
queima o papel
em que escrevo
porque banais
são as palavras
mas não queimes
os sentimentos.
mata a raiva
e a tristeza
mata a dor
e o sofrimento
porque demais
é o amor
que nasce
em mim
em cada momento

Teresa Sales, in Naufrágios



g, mistura-te nestas cores de esperança!

sexta-feira, agosto 06, 2004

Amo...

...quando as palavras morrem no sorriso dos teus lábios, para renascer no teu mais secreto e cúmplice olhar…
Em cada uma um beijo em traços de infinta ternura..

Maria



Beijo roubado ao Abstracto Concreto


Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill


quinta-feira, agosto 05, 2004

Cores de Esperança...

Percorro os caminhos do meu pensamento neste fim de tarde.
As tarefas do quotidiano jazem no passado.
É a hora da bruma e da aragem leve que trás sempre alguma angústia.
Arrasto-me num passeio sem destino saboreando, apesar de tudo
A frescura deste tempo que é só meu.
Estás presente no meu espírito, como sempre, e quase fisicamente te sinto,
Tal é a intensidade da minha vontade em te ter a meu lado.
Deslizo de mansinho para não perturbar este momento mágico,
Saboreando a paz que me envolve.
Quereria ter um sinal de que algum dia poderemos estar juntos
E que esta separação tão dolorosa não será mais do que episódica.
Sem dar por isso embrenho-me no pequeno bosque que rodeia a minha casa.
O trilho é estreito e pequenos ramos afloram a minha pele e a minha roupa.
São carícias da natureza a lembrar-me que estou viva!
O desejo de ver estes afagos substituídos pelos teus torna-se insuportável.
De súbito sinto uma prisão no casaco, forte, em simultâneo com um sopro na face
Que me soa como a palavra Vem! dita num suspiro...
Volto-me em sobressalto e nada vejo aparte uns ramos mais fortes
Que tinha afastado na passagem,
Agitados por algum vento que entretanto se tinha levantado.
Será que...O sinal? Patetice!
E porque não? Sim, e porque não?
Se é que nem sequer me assustei...

Maria




Chegarás sempre na última palavra
na tarde noturna do desejo
onde a paixão se recolhe
e deposita até os fantasmas
febris do desespero
Chegarás na bruma
das sílabas sonoras do amor
o ar sonando no sonho
como uma nuvem que se perdeu
e fica boiando no horizonte
Chegarás como a sombra
quente do sol
esquecida no adeus
Chegarás para dizer
que o amor revela-se
à luz noturna das palavras

Amor de amar

Luis de Miranda


quarta-feira, agosto 04, 2004

Florbela Espanca

Noite de saudade

A Noite vem poisando devagar
Sobre a Terra, que inunda de amargura...
E nem sequer a benção do luar
A quis tornar divinamente pura...

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura...
E eu oiço a Noite imensa soluçar!
E eu oiço soluçar a Noite escura!

Porque és assim tão escura, assim tão triste?!
é que, talvez, ó Noite, em ti existe
Uma saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu sei donde me vem...
Talvez de ti, ó Noite!... Ou de ninguém!...
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!


Se tu viesses ver-me hoje à tardinha

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

IV

És tu! És tu! Sempre vieste, enfim!
Oiço de novo o riso dos teus passos!
És tu que eu vejo a estender-me os braços
Que Deus criou pra me abraçar a mim!

Tudo é divino e santo visto assim...
Foram-se os desalentos, os cansaços...
O mundo não é mundo: é um jardim!
Um céu aberto: longes, os espaços!

Prende-me toda, Amor, prende-me bem!
Que vês tu em redor? Não há ninguém!
A Terra? - Um astro morto que flutua...

Tudo o que é chama a arder, tudo o que sente,
Tudo o que é vida e vibra eternamente
É tu seres meu, Amor, e eu ser tua!


terça-feira, agosto 03, 2004

Brisa

Sou Brisa quando te sonho...

Às vezes quando adormeço e tu me preenches os sonhos,
Acho que eu própria me embalo vendo-me abraçada a ti.
Invariavelmente, enches-me de beijos e a tua boca
Ao percorrer-me a face, provoca-me pequenas cócegas.
O teu murmurar doce deixa-me num êxtase infinito.
Sinto então que perco matéria e me desfaço lentamente,
Como que deslizando à tua volta envolvendo-te em anéis subtis
Que fazem esvoaçar o teu cabelo, levando comigo
As últimas palavras que pronunciaste
E os derradeiros beijos que me deste...

Maria




As faces de teu pensamento
já são minha morada,
mesmo sem sorrisos eternos
mesmo com a vida calada.
Mas sei
que segredas teus sonhos,
que vives meus dias
e tudo que fora promessa
é brisa...
Brisa de encontros serenos
de muitos silêncios
sem palavras,
apenas um estranho silêncio
ouvido até
nas mais doces melodias

Lourreine Beatrice


segunda-feira, agosto 02, 2004

Serenidade

Sento-me aqui muita vez, nesta pedra de onde vejo o lago.
Gosto de lançar pedrinhas e ver as ondas concêntricas formarem corações.
Sinto, o meu próprio, bater ao ritmo do relógio de pulso
E quem me ouvisse respirar diria que estava adormecida.
O Outono acabado de nascer prepara já a cama de folhas
Onde o Inverno se deitará.
É raro o vento, aqui, respeitar a paz destes dias.
Hoje fê-lo, como que adivinhando a serenidade que me invadiu
Desde que te falei!
Ainda sinto a tua mão direita no meu pescoço e a esquerda na cintura,
As nossas orelhas beijando-se.
Vai durar, este abraço! Até que a distância morra de novo...

Maria




Hoje acordei possuída
De toda a dor e ternura dos amantes
Hoje acordei noiva e comprometida
Fiz votos de fidelidade e de castidade
(Que não me pediram)
Imolei meu coração num altar sagrado
Oferecendo-o em um sacrifício
(Que não me pediram)
Queimei velas e incensos
Penteei meus cabelos
Banhei meu corpo
Purifiquei minha alma
E minha cama
Derramei lágrimas, verti sangue
Desfiz-me em soluços
Roucos e aflitos
Transbordei-me em sentimentos
Num oceano claro e morno
E tentei, em vão, encontrar um porto
... Nada me pediram
E eu me entreguei assim inteira
Até me consumir
E me desfazer, lânguida e serena,
Como as ondas que se debruçam sobre a areia

Maria Helena Moura


domingo, agosto 01, 2004

Teu corpo é mar...

Meu mar infinto.
Renasço na fímbria do mar, do teu mar de sargaços,
no teu mar de desencontros e naufrágios…
Renasço na tua boca de sal,
No teu cheiro a maresia,
Renasço em cada onda tua, envolta em grinaldas de espumas,
Em véus de saudade…

Maria



Teu corpo é mar
com frémitos frescos de ondas
e fosforescência de espumas.

Teu corpo é profundidade equórea,
filtrando sol,
mas cheia de sombras vivas
de sargaços, anêmonas, corais.

Quando ele me envolve, é totalmente,
mortalmente.
Anula-me no que sou.
Reduz-me a uma alga inerte
que não sabe do seu destino
no seio do imenso balouço imemorial.

E quando retorno do mergulho trágico,
teu corpo escorre de mim, como uma túnica líquida.
Só então, volto a ser de novo,
respiro o grande ar da vida.

Teu corpo é abismo equóreo,
teu corpo é mar...

Tasso da Silveira


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