Cumplicidades

Há palavras que nos beijam, Como se tivessem boca. Palavras de amor, de esperança. De imenso amor, de esperança louca...

quinta-feira, julho 22, 2004

Quase...

Senti hoje o meu corpo a rejeitar o erguer da manhã
E o meu cérebro a recusar o acordar.
Muita ilusão e muito sonho passam, desfeitos,
Pelo pensamento, a esta hora, ainda titubeante.
Há dias em que não aguentamos as nossas desditas
E a realidade sentida se reveste da mais negra capa.
Quem sabe se estes dias não fazem falta para podermos apreciar
Aqueles pequenos nadas que nos enchem de alegria.
Mas hoje não! Não sinto a cor, os sorrisos, o sol, a vida.
Hoje ocorrem-me em catadupa todos os quase que fui ou possuí,
Com aquela frustração e amargo de boca deixados pelo não realizado.
São acres as lágrimas que solto.
Nelas vão as palavras que me pesam
Angustiadas para se fazerem ouvir, não gritam, não murmuram…
Apenas se choram silênciosamente fechadas no sentir…


Maria




Quasi

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...


Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tude se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá Carneiro




25 Comments:

Anonymous Anónimo said...

a conjugação do sentimento que não se sente, da vontade que não se tem, do ver que não se vê.
é um dia que não se acorda mas se mexe, que não se vê mas que está presente, mas com tudo o que se passa, o dia anda para mais tarde no dia seguinte vivermos o dia com tudo o que se devia ter sentido, ter visto, no dia anterior.
e mais uma vez combinas na perfeição algo teu com algo de outro autor.
beijocas

Paulo Povoa
http://frasesepoemas.blogs.sapo.pt

12:53 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Maria, quanto à tua introdução é admirável como consegues escrever o que muitos de nós sentimos e não o passamos para o papel. Isso já é uma libertação. Quanto a Mário de Sá carneiro que escrever? Adoro-o...Era depressivo, matou-se cedo, mas adoro-o;) Voltando a ti: Solta todos esses "fantasmas" que tão bem escreves, para poderes teres momentos de felicidade:-) Beijos*** wind

1:34 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Olá Maria, então é por aqui que andas... Já andava intrigado com o que teria acontecido ao teu cantinho habitual.
E logo na primeira vez que cá venho levo com um dos meus poemas favoritos nas trombas. E que prazer é levar porrada do Mário de Sá Carneiro.
Humm, estarei a ficar masoquista?

Beijinhos,
Fernando - Cidadão

3:35 da manhã  
Blogger Emilio said...

Sinto por aí, algures, uma nuvem muito cinzenta...
Maria, há que ter fé! Os "quase" do passado não impedirão os muitos "finalmente" do futuro. Encha o seu coração de esperança, pois vale a pena. :)Sobretudo não desespere! Um beijo grande.

8:58 da manhã  
Blogger Marta said...

Dois poemas que se completam na perfeição. Beijo

9:00 da manhã  
Blogger Anjo Do Sol said...

:) É hoje, Maria! Logo à noite tratarei de tudo. ;)
Desejo um bom dia para ti; o meu começou bem logo ao ler este belo poema de Mário e o teu texto de lindas palavras. :) Bjitos

11:15 da manhã  
Blogger Anjo Do Sol said...

Ups! Só mais uma coisinha... Muda aquele link do meu blog. Coloca o http://palavrasapenas.weblog.com.pt
;) Gosto mais do actual. Pelo menos, não dá os mesmos problemas que o Sapo. :) Thanks

11:17 da manhã  
Blogger Pedro Gama said...

A dor também me invade... apenas a supero, acredita...

11:35 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

há sempre mais azul, para além do azul...

bjs

11:41 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

quase que podia amar...

f.p

12:10 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

as alegrias são etéreas tal como as tristezas... não passam de momentos e cabe-nos a nós saber o que fazemos com eles! tu fazes deles lindas palavras... sublimes textos... mas espero que saibas sempre submergir do escuro de uma folha escrita e deixares as mágoas descansar no papel! obrigado por estares de volta... não é só o teu blog... ou o teu canto... és tu... que estás aqui tão bem definida... que nos fazes viver e sentir as tuas palavras! um grande sorriso :)

2:46 da tarde  
Blogger sandra said...

Olá minha querida amiga!Gostei imenso do poema, e o que tu sentes hoje eu sinto quase todos os dias, quando me lembro de tudo não dá vontade nem de acordar...Também concordo contigo quando dizes que muitas vezes nao sabemos apreciar aqueles momentos que embora pequenos nos fizeram muito felizes, mas nao soubemos dar importancia pois era uma coisa banal!
Beijinhos amiga e continua sempre a escrever!

3:10 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Maria, como sempre tu fazes uma bela combinação. Os "quase" estão perfeitos. Beijos

Marcia http://www.lendoesonhando.blogger.com.br/

6:06 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Oi Maria... agradeço o teu comentário. O Sapo apesar dos problemas tem, por exemplo, um sistema de comentários muito mais simples do que o Blogger. Beijocas JAC - Local Imperfeito.

7:59 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Maria ... deixas-me surpreendida como é habitual ... deixas-me sem palavras ... adorei as palavras que escrevestes ... :) Beijinhos
Alma
http://alma01.blogs.sapo.pt

8:53 da tarde  
Blogger CAP said...

É bom reler as origens... um beijinho.

10:23 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

maria, tem sido difícil comentar.
resolvi,hoje,vir por aqui. amei o que colocaste.
são paisagens da alma.

bjs.
maat7

http://ardeoazul.blogs.sapo.pt

2:41 da tarde  
Blogger gandratruck said...

...o momento, muito banal para muitos e especial, bem apreciado atè para outros,
Goza o momento Maria...
bj fica bem,

França

3:20 da tarde  
Blogger ccc said...

tenho andado sem tempo nenhum, só de ver o quasi já estampei um sorriso. Ainda não entendi as mudanças mas assim que puder já vou ler o que se passa por aqui.
bom fds

5:02 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Lindo Maria! Mas nada de tristezas. Nos dias menos bons devemos recordar os momentos bonitos. O sol está sempre lá. Beijinhos e bom fim de semana (finalmente já dá para comentar!!!) Betty

5:04 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Oi Lindinha, cada vez tenho mais prazer em ler-te, encher a alma de palavras. Mas encontrei um texto tristinho. Momentos assim passamos todos, em alguma fase da vida. Tudo pesa, angustia, mas tudo passa... Espero que uma pessoinha tão meiga,como tu, de tanta sabedoria, que possui uma alma tão bela, não saiba tb ver a luz que brilha lá fora e dentro de ti. Sim tu sabes sorrir. Continuo a sorrir para ti, minha amiga, fica bem e bom fds. Beijinhos... muitos. Sorria sempre, alegria ilumina a alma. Beijo da Anne.

8:03 da tarde  
Blogger Marta said...

Vim aqui de fugida e sem tempo nenhum. :)
O comment é só para deixar uns beijinhos.
Bom fim de Semana.
* * *

10:14 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Quase... tudo ou nada?

JAC - Local Imperfeito (jac.blogs.sapo.pt)

11:21 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Que angustiante, Maria! Eu sei, à minha maneira, mas sei como é acordar com essa sensação de angustia, de sufoco. Tempos que já lá vão, mas tornam, por vezes com insistência a voltar! Nada como tentar matar velhos fantasmas, que por vezes insistimos em manter em nós...

DL: http://euseila.blogs.sapo.pt

12:21 da manhã  
Blogger Joao said...

Eu gosto muito deste poema. Adorei revê-lo.
Beijinhos!

(http://memorialdoconvento.blogspot.com/)

11:09 da manhã  

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