Cumplicidades

Há palavras que nos beijam, Como se tivessem boca. Palavras de amor, de esperança. De imenso amor, de esperança louca...

domingo, abril 03, 2005

Da Entrega...

Passo-te as mãos no rosto num gesto de ternura intemporal
Os dedos àvidos de trajectos,
Os teus olhos de perguntar encontram os meus
Desenhando-lhes lentos compassos de espera,
Demoradamente lentos,
Devolvo o medo inquieto de que me saibas
Como se fosse possível impedi-los de te beijar
Com a furia de quem ama,
O teu cheiro a entrar no meu corpo.
A ternura a espraiar-se.
Os meus dedos a enrolarem-se nas palavras
Dolorosas do teu silêncio,
Os meus lábios no desejo da comunhão do sentir,
Beijam-te baixinho,
Para que oiças a ternura limpida
Do meu aceitar.
Solto-me de mim, para livre
Me depositar nas tua alma e no
Teu corpo.

No meu olhar a entrega da ternura
A certeza do amanhã...

domingo, janeiro 02, 2005

As Rosas




Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
És tu a Primavera que eu esperava
a vida multiplicada e brilhante
em que é pleno e perfeito cada instante

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
És tu a primavera que eu esperava...

Sophia de Mello Breyner Andresen


Cumplicidades


segunda-feira, novembro 29, 2004

Até sempre....

De repente nada mais consigo escrever, meu amor.
Há um profundo vazio que se recusa a ser preenchido
Por sonhos que nunca se tornarão realidade, ai de mim.
É bom entrelaçarmo-nos em doces devaneios suspirados,
Em palavras lindas e em sentimentos de profunda devoção.
Mas destrói-nos a alma realizarmos por instantes
Que o sofrimento motivado pela privação permanente
Não passará nunca, por muito que façamos de conta.
Não vejo perspectivas de poder ser tua e, por consequência, de tu seres meu.
Deixemos repousar as coisas do coração por aqui, antes que nos aniquilem.
Porque as da amizade essas, para mim, serão eternas.
Intimo-te a que não me faltes em momento de aflição, se puderes!
Que eu tenho a coragem de fazer o que tem de ser feito e tu também o sabes.
És aquilo que de mais belo me aconteceu e resides já no meu peito num canto único.
Agora, retém as lágrimas.
Deixo-te o meu sorriso como símbolo do que foi o tempo nosso.
Que te acompanhe sempre um beijo que principia aqui...

Até sempre!



domingo, novembro 28, 2004

Regresso...

O meu amor da vida está paralisado pelo teu sono
É como ave no ar veloz detida
Tudo em mim se cala para escutar o chão do teu regresso

Pois no ar estremece tua alegria
- Tua jovem riqueza de arbusto -
A luz espera teu perfil teu gesto
Teu ímpeto tua fuga e desafio
Tua inteligência tua argúcia teu riso

Como ondas do mar dançam em mim os pés do teu regresso


Sophia de Mello Breyner Andresen




Sinto no rosto o vento da saudade que te sei
Saboreio nas gotas de chuva o sal das tuas lágrimas.
E nas nuvens escuras que passam vejo a tristeza que te consome.
Vejo-te no Adeus, e dói-me o sorriso de partir
Este partir e ficar na saudade
Ficas de pé acenando teu braço nuvem
Onde a chuva é certeza...

Antevemos já o silêncio do reencontro
Nos novelos do tempo
Que fiamos lado a lado
Por todas as horas

Antevejo as portas que se irão abrir no teu olhar
Adivinho-me a escorregar pelo mistério do teu corpo
Como o sol de ti ...de mim

Sol que nasce dentro de nós,
E que rompe em abraço luz as nuvens da saudade.


Sossega amor, não demoro...

sexta-feira, novembro 26, 2004

Ruy Belo



Atropelamento mortal

Nalgum oásis do princípio ele fora
Um fugitivo brilho no olhar de Deus
- a vida havia de lho lembrar muitas vezes

Atravessou as nossas ruas entre gatos,
a chuva molhou-lhe as pobres botas cardadas.
Teve um banco de jardim, teve amigos, um deles o sol.
Sempre sem o saber procurou Deus.
Um dia, foi pelos campos fora atrás dele,
perdeu o emprego na Câmara Municipal. Teve mãe mas depois
nunca mais foi solução para ninguém.

Naquele dia a morte instalou-o
confortavelmente no céu. Lá se foi
com seus modos humanos, seus caprichos
e um notório acanhamento em público
(há-de a princípio faltar-lhe à vontade entre os anjos).

Tinha o nome no registo, agora habita
nas planícies ilimitadas de Deus.
Nas suas costas ainda se derrama
a tarde interrompida.
Manhãs e manhãs desfilarão sobre ele,
Caracóis cobrirão a memória daquele
que foi da sua infância como qualquer de nós.
Teve um nome de aqui, andou de boca em boca,
agora é Deus que o tem na voz.


Sugestão alternativa do OrCa para acompanhar a fotografia:

A vida é um traço que faço num passo gizado dos dias
A vida é o que eu faço no passo-compasso no laço dos dias
E quando parece que nada acontece por melancolias
Mesmo que eu não saiba descobrir-lhe o nexo
Há um reflexo simétrico e simples
Que segue a meu lado
E sou eu que o faço
No espelho de água desse doce enlace
De que é feita a vida.



Foto escolhida e da autoria do Ognid

Poema de Ruy Belo"Roubado" ao Morfeu

quarta-feira, novembro 24, 2004

Fragmentos de uma carta #2

...
tu do meu coração, manda-me um recado;
que eu posso ir junto dele, e tomar as suas mãos,
dizendo, Aceita toda a felicidade de mim.

e.e. cummings



Minha Vida

São longas as horas que passo sem ti. Cada folha que cai, sinto-a como uma lágrima de saudade. A minha alma, como uma árvore que se prepara para o Inverno, encontra-se quase despida do manto de ternura que me deixaste da última vez que estivemos juntos.
Já preciso da Primavera que é a tua presença. Do Sol que é o teu sorriso, das estrelas que são os teus olhos, dos pássaros que são tuas palavras e das flores que são teus beijos.
Só as tuas benditas mãos me podem massajar a alma de tão tolhida que está pela aridez da tua ausência. Vem para mim com a inexorabilidade do Tempo, para que não falhes.
Aguardo-te com a impaciência do renascimento.

Sempre tua

Maria


segunda-feira, novembro 22, 2004

Ninho....


Imagem daqui

Corres para mim
Como nuvem soprada
Rasando o trigo
E assim vens correndo manso
Instante sombra na copa das àrvores
Agitadas pelo vento

Sorris e cantas
Porque o hoje já foi
E a angústia do amanhã
É ainda um medo que não chegou

sou o teu ninho feito de macias penas
Que me arrancaste docemente, dia a dia, hora a hora
Urdidas pelos jogos de amor em que exímio és.
Descansa aqui das fadigas do corpo
E enxuga as lágrimas da alma.

Estou sempre aqui… para ti

sábado, novembro 20, 2004

Esta Saudade...

Saudade! Gosto amargo de infelizes,
Delicioso pungir de acerbo espinho,
Que me estás repassando o íntimo peito

(...)

(...) Vem (...)

A alma buscar-me que por ti suspira.

Almeida Garrett




Sento-me na varanda dos teus olhos

E faço-te este poema de saudade
Alongo os gestos na música que entardece
Como são longos os braços num abraço que estremeçe
Como é vermelho o sol na tarde que esvoaça
Traz-me novelos de oiro nos dedos traços
Alonga no azul o perguntar dos olhos
Deixa morrer na terra a semente do meu pão
E abandona o corpo no ondular das ondas
Sê rocha, areia, vento e céu azul
Morre amor e nasce lírio, ramo flor
Olhos de mar rasgados de martírio
Aurora na tarde, esperança de amanhã
Andorinhas da tarde dançando loucas
Na corrente fechada das nossas mãos...

(...)

Depois, levanto-me e mergulho no mar de ti
nadando descuidada
nos segredos da tua boca...

quinta-feira, novembro 18, 2004

Irmão...

Estavas sentado na borda do passeio.
Quando passei fitaste-me.
Olhei-te nos olhos e tive um arrepio.
Lá bem no fundo, muito para além da retina,
A cratera negra do desespero abria-se,
Mostrando os contornos de todo o lixo acumulado durante a tua jovem vida.
Achei que me pedias ajuda.
Consternada e envergonhada, enfiei-te na mão, titubeando,
A única nota que trazia comigo.
Covardemente varri-te nesse instante do meu pensamento,
Não sem antes ter pensado: e se fosses meu irmão?
Não fiz caridade. Fugi de uma situação que não aguentaria, a ser verdade.
Quando passo no local onde te vi,
Recolho sempre o saco de plástico que guardavas junto a ti
E todos dias o jogo no lixo.
Nunca tive coragem de o abrir...
Por favor, perdoa o meu egoismo!


Imagem retirada daqui



Aquele homem que passou na rua
Com o olhar perdido
Num sonho sem forma
É meu irmão.
Aquele homem que arrasta os pés
Com os braços caídos
O fato roto e os pés doridos
É meu irmão.
Aquele homem que foi novo
E tinha a felicidade no olhar
Que nunca me viu
Que nunca me falou
Que não sabe se sou viva
Ou se já morri
E que sonha como eu
Um sonho escondido no olhar
E que tem como eu
O vazio em cada mão
Aquele homem
É meu irmão.


quarta-feira, novembro 17, 2004

Naquele Rio

...

Deixavas-me deslizar sobre ti
Num movimento sem princípio nem fim
Em torno da tua figura orgulhosa e bela,
Onde sentia cada escaninho do teu corpo
Cada segredo, cada sonho e cada esperança.
Crescia com eles e quando os tinha todos,
Abrias os braços para que neles me pudesse envolver
e descansar em ti
As palavras morriam no longo beijo da despedida...

Maria


Rio Zêzere


De esperas construímos o amor intenso e súbito
que encheu as tuas mãos de sol e a tua boca de beijos.
Em estranhos desencontros nos amamos.
Havia o rio mas sempre ficávamos na margem.
Eu tocava o teu peito e os teus olhos e, nas minhas mãos,

a tarde projectava as suas grandes sombras
enquanto as gaivotas disputavam sobre a água
talvez um peixe inquieto, algo que nunca pudemos ver.
As nossas bocas procuravam-se sempre, ávidas e macias
E por muito tempo permaneciam assim, unidas,
Machucando-se, torturando as nossas línguas quase enlouquecidas.
Depois olhávamo-nos nos olhos
No mais profundo silêncio. E, sem palavras,
Partíamos com as mãos docemente amarradas e os corações estoirando uma alegria breve
Quando a noite descia apaixonada
Como o longo beijo da nossas despedida.

Joaquim Pessoa



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